Captação ou venda (M&A): A decisão crucial para empreendedores
Por Guilherme Tossulino - 15/09/2026
Captação ou venda (M&A)? Poucas decisões pesam tanto na vida do empreendedor, e poucas são tomadas com tão pouca informação sobre o mercado real. Qual dos caminhos faz mais sentido? A decisão é complexa. Envolve sociedade, vida pessoal, mercado e, às vezes, pura oportunidade.
Pode parecer preciosismo, mas essa é muitas vezes a decisão mais importante na vida do empreendedor e, consequentemente, da empresa. Ela merece cenários na mesa, não impulso.
E o mercado em que essa escolha é feita mudou bastante nos últimos dois anos. Abaixo, o que os dados mais recentes do M&A brasileiro mostram e o que isso muda na decisão.
Mercado de Tech M&A Brasil: o que mudou em 2026
O volume detransações de tecnologia no Brasil vinha em recuperação consistente até o ano passado. Pela série histórica levantada pela Questum no M&A Deals Report, foram 295 deals em 2021, 229 em 2022, 147 em 2023, 196 em 2024 e 245 em 2025, o melhor ano desde o pico do ciclo de capital barato.
O primeiro semestre de 2026 quebrou essa curva: 87 transações, uma queda de cerca de 33% frente ao mesmo período de 2025. Não houve fuga de compradores. Houve elevação de régua. Os consolidadores de software vertical, que operam com capital permanente e tese de portfólio, mantiveram atividade enquanto compradores menos estruturados recuaram. E os compradores estrangeiros responderam por 21% do semestre, em trajetória sem recuo nos últimos cinco semestres.
Isso se chama seleção.
Há um segundo movimento por trás dessa seletividade: a inteligência artificial deixou de ser diferencial e passou a reorganizar as teses de aquisição. O acesso à tecnologia virou commodity. O que o comprador procura agora é o que não se replica via API: base de dados proprietária, integração crítica no processo do cliente, marca e comunidade. Empresas cuja proposta de valor era essencialmente entregar tecnologia disponível a todos perderam prêmio no valuation.
A verdadeira escala das saídas no Brasil
Este é o dado que mais deveria pesar na decisão entre captar e vender, e é o que os founders mais subestimam: o M&A brasileiro de tecnologia acontece em tickets muito menores do que o imaginário do ecossistema sugere.
No Buy-Side Report 2025 da Questum, 61,8% das transações reportadas pelos compradores ficaram até R$ 60 milhões e 87% até R$ 100 milhões. Transações acima de R$ 100 milhões existem, mas são a exceção, não o alvo estatístico.
Um levantamento nosso com 1.181 empresas de tecnologia brasileiras adquiridas entre 2021 e o primeiro semestre de 2026 mostra que 90,1% delas nunca haviam captado uma Série A. A mediana de valor das transações sem Série A foi de R$ 37 milhões; entre as VC-backed, R$ 532 milhões. E a fatia de alvos com venture capital por trás vem caindo: 12,3% em 2021, 12,7% em 2022, 7,7% em 2023, 8,0% em 2024 e 5,8% no primeiro semestre de 2026. Nove em cada dez vendas de tecnologia no Brasil não tiveram venture capital por trás.
A leitura é clara: captar aumenta o valuation possível na saída, mas reduz muito a probabilidade de que a saída aconteça. O caminho estatisticamente mais provável para a liquidez do founder brasileiro é uma empresa eficiente em capital e lucrativa. A rodada grande é a rota menos frequente.
Valuation: as diferenças ao vender ou captar
Os fundamentos que guiam o valuation do venture capital (VC) são orientados a cenários de extremo sucesso, com elevadas taxas de crescimento e domínio do mercado de atuação. Para isso acontecer, muitas vezes abdica-se do retorno no curto prazo, visando um ganho futuro que, dependendo do investidor, pode chegar a 8 ou 10 anos. Há ainda situações em que a rodada é feita com um private equity (PE), que assume risco menor que o VC, com período de maturação e retorno mais curtos.
Já o valuation para uma saída estratégica via M&A tende a ter fundamentos mais conservadores e se baseia em cenários mais previsíveis de execução. O comprador está precificando sinergias e capacidade de integração, o que traz o número para um patamar mais "pé no chão".
A consequência prática é aritmética. A tese de um investidor de VC ou PE visa multiplicar o capital investido no mínimo 3 vezes, podendo chegar a 5 ou mais. Uma captação feita a um valuation de R$ 50 milhões cria, na prática, um piso de saída na casa dos R$ 150 milhões para que o investidor considere o retorno adequado.
Agora confronte esse piso com os números do mercado. Uma empresa que capta a R$ 50 milhões coloca a própria saída fora da faixa onde ocorre a grande maioria dos deals brasileiros. Ela não fica impedida de vender. Fica dependente de um universo muito menor de compradores, de um ciclo de crescimento mais longo e de um mercado disposto a pagar prêmio. Em 2026, com compradores mais seletivos, esse universo ficou ainda mais estreito.
Desejos pessoais: qual é o seu sucesso?
Costumo falar para os empreendedores que a definição de sucesso é algo particular e singular. Cada um tem sua perspectiva de mundo e de vida, e ela precisa entrar na conta. Mapear limites, anseios e desejos antes de definir o caminho da empresa, captar ou vender, é o que evita a decisão tomada no calor da oferta.
Vale colocar o número na mesa nessa conversa. Uma venda de R$ 50 a R$ 80 milhões é um resultado extraordinário para quem construiu a empresa com pouco capital externo, e pode ser decepcionante para quem levantou uma rodada grande e diluiu participação. O mesmo cheque produz duas experiências opostas, e a diferença foi decidida anos antes, na estrutura de capital.
Os sócios precisam combinar onde querem chegar e qual retorno cada um espera antes de qualquer oferta aparecer. Recomendo entender o apetite de cada sócio ao risco, quanto de "estamina empreendedora" ainda existe em cada um, os movimentos de mercado e as oportunidades, para então tomar a decisão.
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Decisões estratégicas
Seja levantando capital ou vendendo, os empreendedores precisam avaliar metas de longo prazo, estrutura de capital atual e dinâmica do mercado, sem se fechar para as oportunidades. É essa avaliação que separa um bom desfecho de um arrependimento caro.
No contexto de 2026, eu acrescentaria três perguntas ao processo:
- Em qual faixa de valuation a minha empresa realisticamente se encaixa hoje, e a rodada que estou considerando me tira dessa faixa?
- O que na minha empresa não é replicável por um concorrente com acesso às mesmas ferramentas de IA?
- O comprador provável do meu negócio é um consolidador setorial, um estratégico ou um estrangeiro, e o que cada um deles precisa ver para pagar prêmio?
Acredito que a resposta para captar ou vender é sempre "depende". Depende do perfil do empreendedor, do negócio, do mercado e das oportunidades. O que os dados dos últimos anos deixaram mais claro é que a decisão precisa ser tomada com a régua do mercado brasileiro real, não com a régua do noticiário de rodadas.
Quem responde com clareza está pronto para decidir. Quem hesita ainda está decidindo com a régua errada.
Leia também: Vender ou captar? Riscos, vantagens e armadilhas de cada operação, uma análise dos mecanismos contratuais que podem dificultar a saída após rodadas de investimento.
Perguntas frequentes
Quando vale mais a pena vender a empresa do que captar investimento?
A venda tende a fazer mais sentido quando os fundadores querem liquidez em prazo definido, quando o setor está em movimento de consolidação, ou quando a empresa já captou rodadas anteriores com valuations que reduzem o universo de compradores. Os dados reforçam isso: no Buy-Side Report da Questum, 61,8% das transações ficaram até R$ 60 milhões e 87% até R$ 100 milhões. A janela de saída estratégica existe para a maioria das empresas brasileiras de tecnologia, sem depender de escala de unicórnio.
Como o valuation de captação afeta uma venda futura?
Quando uma empresa capta investimento, os investidores de VC ou PE esperam retorno de 3x a 5x sobre o valor investido. Se a captação ocorreu a um valuation de R$ 50 milhões, a venda precisará superar R$ 150 milhões para satisfazer os investidores, patamar acima do teto de 87% das transações do mercado brasileiro de tecnologia. Na prática, a rodada não impede a venda, mas estreita muito o conjunto de compradores possíveis e alonga o prazo até a liquidez.
É preciso captar venture capital para conseguir vender a empresa?
Não. Em um levantamento de 1.181 empresas de tecnologia brasileiras adquiridas entre 2021 e o primeiro semestre de 2026, apenas 9,9% haviam captado uma Série A ou superior antes da transação. As outras 90,1% chegaram à mesa de negociação sem captação relevante de venture capital, e a fatia de alvos VC-backed vem caindo, de 12,3% em 2021 para 5,8% no primeiro semestre de 2026.
Qual a diferença entre VC, PE e M&A para o empreendedor?
O VC financia crescimento agressivo com horizonte de 8 a 10 anos e retorno esperado alto, aceitando alto risco. O PE assume risco menor, com maturação e retorno em prazo mais curto. O M&A entrega liquidez real ao founder com fundamentos mais conservadores, baseados em sinergias e cenários previsíveis de execução. A escolha depende do estágio da empresa, do perfil de risco dos sócios e dos objetivos pessoais de cada fundador.
O que mudou no mercado de M&A tech em 2026?
O primeiro semestre de 2026 registrou 87 transações, queda de cerca de 33% ante o mesmo período de 2025, ano que fechou com 245 deals. A leitura é de régua mais alta, com comprador presente: consolidadores de software vertical seguiram ativos, compradores estrangeiros responderam por 21% do semestre e a inteligência artificial passou a orientar as teses de aquisição, com foco em ativos não replicáveis via API, dados proprietários, marca e comunidade.
Como alinhar os sócios sobre a decisão de captar ou vender?
O ponto de partida é mapear o que é sucesso para cada sócio individualmente: valuation esperado, prazo, apetite a risco e disposição para continuar operando sob pressão de investidores. Sem esse alinhamento prévio, qualquer decisão entre captar e vender pode gerar conflito no momento mais crítico da negociação. A recomendação é ter essa conversa antes de qualquer oferta formal chegar à mesa.
Fontes dos dados
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M&A Deals Report 2026 H1, Questum: https://questum.com.br/blog/ma-deals-report-2026-h1
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Buy-Side Report 2025, Questum: https://questum.com.br/blog/buy-side-report-2025
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"9 em cada 10 vendas tech no Brasil não tiveram VC por trás", Leopoldo de Lima, 24/08/2026: https://questum.com.br/blog/vendas-tech-no-brasil-nao-tem-vc-por-tras
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