Crescimento acelerado não vem apenas de vender mais — vem de entregar mais valor

Crescimento acelerado não vem apenas de vender mais — vem de entregar mais valor

Em duas reuniões recentes com empresas de tecnologia em estágios distintos de maturidade, emergiu mais uma vez um padrão estratégico claro: o principal gargalo de crescimento não estava na capacidade de aquisição de novos clientes, mas na limitação da oferta de valor entregue aos clientes atuais e potenciais.

Em ambos os casos, o debate inicialmente partiu de métricas clássicas: crescimento de receita, EBITDA, eficiência comercial, CAC e valuation. No entanto, à medida que a conversa evoluiu, ficou evidente que os planos desenhados levavam a um crescimento incremental insuficiente para atingir os objetivos estratégicos pretendidos, especialmente quando analisados sob a ótica de velocidade de crescimento e atratividade para potenciais compradores estratégicos.

A conclusão convergiu para um ponto central: não é possível acelerar o crescimento relevante apenas otimizando o modelo atual. É necessário repensar a proposta de valor.

O erro recorrente: focar apenas no eixo "quantidade de clientes"

Grande parte das empresas de software estrutura sua estratégia de crescimento quase exclusivamente no aumento do número de clientes: mais leads, mais conversão, mais volume. Esse é o chamado crescimento no eixo X.

O problema é que, em mercados B2B mais complexos, especialmente enterprise ou mid-market, há limites naturais para esse eixo:

  • Ciclos de venda longos
  • ICP restrito
  • Decisores inacessíveis
  • Alta exigência de implementação e suporte

Nesses contextos, tentar dobrar ou triplicar crescimento apenas aumentando o volume de clientes costuma ser ineficiente, caro e lento.

O que frequentemente fica negligenciado é o eixo Y: o valor capturado por cliente.

A alavanca esquecida: expansão da oferta de valor

Nas duas reuniões, o ponto de inflexão ocorreu quando a discussão saiu de "como vender mais do mesmo" para "o que mais podemos resolver para o cliente".

Isso não significa, necessariamente:

  • Criar um novo produto
  • Aumentar preços de forma arbitrária
  • Complexificar a operação sem critério

Na prática, a expansão da oferta de valor costuma passar por caminhos como:

  • Serviços recorrentes acoplados ao produto
  • Operação de atividades críticas que hoje o cliente executa mal ou terceiriza de forma ineficiente
  • Monetização de etapas adjacentes da cadeia de valor
  • Participação econômica em resultados que o cliente já gera (ou perde)

O ponto-chave é simples: se o problema é crítico para o cliente, ele paga, direta ou indiretamente.

Escalabilidade: o mito que trava decisões estratégicas

Um bloqueio comum observado nas discussões foi o receio de adotar iniciativas percebidas como "não escaláveis", especialmente serviços operacionais.

Aqui surge uma distinção fundamental, frequentemente ignorada:

  • Escalabilidade econômica: receita cresce sem aumento proporcional de custos
  • Escalabilidade operacional: capacidade de replicar a operação com previsibilidade e controle

Muitos modelos altamente bem-sucedidos não possuem escalabilidade econômica perfeita, mas são amplamente escaláveis do ponto de vista operacional e altamente lucrativos.

Do ponto de vista de um comprador estratégico, o que importa não é a estética do modelo, mas a capacidade de gerar receita recorrente, crescimento acelerado e margem sustentável.

Crescimento mais rápido muda tudo, inclusive o valuation

Um dos aprendizados mais relevantes reforçados nas duas reuniões é que valuation não é função apenas do tamanho da empresa, mas da velocidade com que ela cresce.

Duas empresas com números semelhantes hoje podem ter valuations radicalmente diferentes se:

  • Uma cresce 20% a 30% ao ano
  • Outra cresce 70% a 100% ao ano

A expansão da oferta de valor impacta diretamente:

  • Ticket médio
  • Retenção
  • CAC Payback
  • Dependência de aquisição de novos clientes

O resultado é um crescimento mais rápido, mais previsível e mais defensável, exatamente o que compradores estratégicos buscam.

A pergunta estratégica correta

Em vez de perguntar "como vendemos mais do que já fazemos hoje?", as empresas deveriam perguntar: "que parte relevante do problema do cliente ainda não estamos resolvendo, e poderíamos resolver melhor do que qualquer outro?"

As duas reuniões mostraram que, quando essa pergunta é feita com profundidade, surgem oportunidades de crescimento que não estavam no radar original e que podem redefinir completamente a trajetória da empresa.

Conclusão

A expansão da oferta de valor não é um desvio de foco. Pelo contrário: é frequentemente o caminho mais eficiente para acelerar crescimento, melhorar métricas fundamentais e criar uma empresa muito mais atraente para uma transação de M&A no futuro.

Empresas que entendem isso cedo deixam de competir apenas por volume e passam a competir por relevância estratégica na vida do cliente. E, no final do dia, é isso que constrói valor real.

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