O software morreu? Depende do que você está construindo

O software morreu? Depende do que você está construindo | Questum

Um trilhão de dólares evaporou em semanas. A pergunta não é se o software SaaS vai morrer. É se o seu merece sobreviver.

Oracle caiu 29%. Salesforce, 28%. O mercado inventou o termo "SaaSpocalypse" e parte dos investidores acreditou. O pânico é real. Mas pânico é uma péssima ferramenta de análise.

Estou nas trincheiras desse ecossistema há anos. Já vi fundadores errarem o timing do exit, investidores fugirem de boa tese por medo mal calibrado, e compradores estratégicos pagarem prêmio absurdo em empresas que o mercado havia descartado. O que estou vendo agora não é o fim do software. É uma seleção natural acelerada.

Darwin chamaria de adaptação. Eu chamo de oportunidade para quem está lúcido.

O software SaaS está morrendo por causa da IA?

Não de forma universal. Essa é a distinção que a maioria dos analistas está ignorando.

Não é o software que está morrendo. É o software genérico, intercambiável, sem profundidade. Aquele que resolve uma dor superficial sem entrar de verdade na operação do cliente. "Mais um CRM". "Mais uma ferramenta de produtividade". Software que pode ser descrito em duas frases e replicado por um agente de IA em uma tarde.

Esse software tem problema. E o problema não é novo. A IA só acelerou o diagnóstico.

O modelo de precificação por assento também está com os dias contados. Cobrar por usuário/mês faz sentido quando o trabalho é feito por pessoas. Quando agentes de IA reduzem o número de humanos necessários para operar um sistema, o modelo desmorona. Você continua vendendo por assento para uma plateia que está encolhendo.

O que continua valioso no SaaS e por quê

Platão dizia que a Forma da coisa é mais real que a coisa em si. No software, a Forma que importa é a profundidade da integração com o negócio do cliente.

ERP no coração do back-office de uma empresa de médio porte não vai ser substituído por um agente genérico. Software vertical que serve setores regulados como saúde, direito ou finanças, onde o dado tem peso jurídico e o contexto de domínio é denso, continua inabalável. Plataformas com efeito de rede genuíno e dados proprietários ficam mais valiosas com o tempo, não menos.

O mercado de IA SaaS deve alcançar US$ 775 bilhões até 2031. Vertical SaaS cresce 25% ao ano. E startups AI-native estão escalando em velocidade que não víamos desde 2021.

O Intercom levou o Fin AI Agent de US$ 1 milhão para US$ 100 milhões em ARR em 2,5 trimestres.

O que é uma startup AI-native e por que ela é diferente de AI-enabled?

Existe uma diferença estrutural entre as duas.

Uma startup AI-native é construída desde o início com inteligência artificial como interface e operação principal. Sem código legado, sem UI antiga para manter, sem clientes acostumados com o jeito antigo de fazer as coisas. Ela pode criar experiências completamente novas onde agentes autônomos são a interface principal.

Uma startup AI-enabled apenas cola IA em cima de uma arquitetura que já existe. É cosmético. Pode comprar tempo no curto prazo, mas carrega o peso da transição.

São as empresas AI-native que estão levantando valuations expressivos com equipes de 10 pessoas. E são elas que, do ponto de vista de M&A, negociam múltiplos muito diferentes de SaaS tradicional.

Três movimentos que separam quem vai sobrar de quem vai sumir

O primeiro: verticalize ou aceite a commoditização. Expertise de domínio somada a IA é um ativo defensável. IA sozinha não é. Se você entende construção civil, clínicas médicas ou agronegócio com profundidade real, e consegue embalar isso em software com IA embarcada, você tem um negócio. Se está construindo solução horizontal sem diferenciação, está correndo uma corrida que vai virar leilão de preço.

O segundo: mude como você cobra. Precificação baseada em outcomes, workflows ou per-agent não é tendência de 2030. É o presente. Quem entender isso agora e renegociar contratos antes que o cliente faça a conta sozinho vai ter vantagem competitiva brutal nos próximos 18 meses.

O terceiro: construa AI-native, não AI-enabled. A segunda opção compra tempo. A primeira constrói empresa.

Como a IA está afetando os múltiplos de valuation em M&A de startups?

É aqui que o cenário fica mais interessante para quem opera em fusões e aquisições.

O mercado de transações está se reestruturando. Compradores estratégicos estão pagando prêmio por três ativos específicos: dados proprietários de qualidade, propriedade intelectual defensável e equipe técnica que domina agentic AI. Receita pura perdeu peso relativo nos múltiplos.

Acqui-hires estão acelerando. Contratar individualmente é mais caro e arriscado do que comprar o time junto com o produto. E tem um movimento novo que estou observando com atenção: grandes corporações comprando startups em seed ou Series A para ganhar velocidade em competências de IA, antes de tentar desenvolver internamente e chegar dois anos atrasadas.

Empresas bem posicionadas estão sendo castigadas agora junto com as mal posicionadas. Esse tipo de distorção cria janelas de oportunidade para quem está olhando com frieza.

O que fazer se você está construindo ou pensando em exit agora

Três perguntas que peço para todo fundador responder com honestidade.

Primeiro: seu software pode ser replicado por um agente de IA genérico? Se a resposta for sim, ou "talvez", você precisa adicionar camadas de defensibilidade agora. Dados proprietários, integração profunda em workflows críticos, especialização vertical. Não no próximo roadmap. Agora.

Segundo: sua precificação ainda é baseada em assentos? Se for, você está vendendo para uma base que a IA está encolhendo. Pense em valor entregue, não em licenças ativas.

Terceiro: você está construindo AI-native ou colando IA em cima do que já existe?

O software não morreu. Mas o software medíocre, sem profundidade e sem diferenciação, está em modo terminal.

A pergunta que fica é direta: qual dos dois você está construindo?

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