No cenário brasileiro de startups, as fusões e aquisições continuam sendo o caminho mais concreto de liquidez. Segundo o M&A Deals Report 2025 da Questum, foram 245 transações de tecnologia no Brasil só em 2025 — um salto frente às 196 de 2024 e às 147 de 2023. O volume do primeiro semestre cresceu 71,1% em relação ao mesmo período de 2024, mesmo diante de um cenário de juros ainda elevados.
Isso é normalização, não euforia. Passado o inverno das startups, as transações que ficaram represadas voltaram a acontecer. Empreendedores e investidores que seguraram o exit no período de baixa liquidez voltaram a analisar suas opções. Compradores que evitaram aquisições nos últimos anos retomaram a necessidade de incorporar receita e tecnologia.
E no Brasil, a lógica do early exit continua sendo a mais relevante: 98% das transações de M&A ocorrem entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões. Isso significa que a maioria dos exits bem-sucedidos não depende de escala de unicórnio. Essa é uma realidade que destaco desde 2019, e que os dados continuam confirmando.
Early exit é uma estratégia para empreendedores que buscam o ponto ótimo de saída — aquele em que o retorno ao risco tomado é maximizado, sem precisar esperar pelo tamanho que um unicórnio exige.
O conceito foi desenvolvido por Basil Peters no livro Early Exits e é especialmente relevante para o mercado brasileiro, onde a maioria dos compradores estratégicos opera em faixas de valuation entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões. Nesse universo, construir uma empresa com governança sólida, receita recorrente e tecnologia diferenciada já é suficiente para atrair compradores sérios — sem depender de rodadas de captação de VC em sequência.
Nem toda empresa será um unicórnio. Mas toda empresa precisa dar retorno ao risco tomado. Esse é o ponto de partida do early exit.
Early exit não é vender por qualquer preço para sair rápido. Não é desistir da empresa antes do tempo. Não é o plano B de quem não conseguiu crescer.
É uma estratégia deliberada — construída ao longo do tempo — que começa com a pergunta: qual o ponto ótimo de saída, dado o perfil da minha empresa e o contexto dos compradores disponíveis no mercado?
Para deixar claro o quanto esse caminho é distinto da rota dos unicórnios: de acordo com o Latin America Venture Capital Report 2025 (Cuantico VP), em 2024 apenas uma empresa atingiu o status de unicórnio em toda a América Latina — o Agibank, no Brasil. Em 2021 foram 21. O vale entre essas duas realidades resume por que a maioria dos founders precisa de um plano diferente do que o roteiro de rodadas sucessivas promete.
O conceito não mudou. O contexto, sim — e de formas que tornam a estratégia ainda mais relevante do que era quando comecei a destacar essa tese.
O primeiro dado que chama atenção é o perfil dos compradores. O índice de transações por comprador caiu para 1,16 em 2025 — o menor da série histórica do M&A Deals Report da Questum. Em 2021, no pico do boom, estava em 1,63. O que isso significa na prática: o mercado ficou menos concentrado em compradores seriais e mais distribuído entre empresas médias atuando de forma estratégica e pontual. São compradores que compram uma vez, com tese clara, e não voltam ao mercado por dois ou três anos. Isso aumenta a competição pelo ativo certo — e reduz a tolerância com empresas mal preparadas.
O segundo movimento é estrutural: a IA acelerou o early exit de formas que não existiam em 2023. Empresas com IA embarcada deixaram de ser um diferencial marginal e passaram a influenciar diretamente o valuation e o interesse dos compradores. Mas há um fenômeno mais específico: grandes empresas precisam adquirir capacidade de IA antes de desenvolvê-la. A urgência delas é maior do que o tempo de maturação de muitas startups. Isso cria janelas de early exit que não dependem do estágio avançado da empresa — dependem de ela ter o ativo certo no momento em que o comprador precisa.
O terceiro dado é sobre liquidez. De acordo com o Latin America Venture Capital Report 2025, em 2024 foram registrados apenas 79 exits de startups com suporte de VC em toda a América Latina — o menor número dos últimos anos — com valor total de US$ 1,9 bilhão, ante US$ 9,2 bilhões em 2021. O M&A, especialmente o early exit, é o caminho real de liquidez para a maioria das empresas da região.
Por fim, um dado da pesquisa com compradores feita pela Questum em 2025: 84% dos principais compradores de tecnologia do mercado brasileiro pretendem realizar ao menos uma aquisição até o final de 2026. O apetite existe. O que falta, na maioria dos casos, não é comprador — é empresa preparada.
O mercado de M&A de startups no Brasil é dominado por aquisições feitas por compradores estratégicos e consolidadores. Eles buscam acesso a times, produtos, modelos de negócio e, cada vez mais, dados e tecnologia embarcada.
Os setores mais ativos em 2025 foram ERP/TI, Mercado Financeiro (Fintechs) e Marketing e Vendas — com crescimento relevante de Análise de Dados, reflexo direto da demanda por soluções com IA. A predominância de modelos SaaS B2B confirma a preferência dos compradores por receita recorrente e previsibilidade financeira.
Nos processos que acompanho na Questum, a diferença entre um exit bem estruturado e uma oportunidade perdida quase sempre se decide dois ou três anos antes da transação.
Antes de buscar compradores, o founder precisa responder algumas perguntas com clareza: qual o valuation alvo de saída? Qual o ponto ótimo de aquisição para os compradores do meu setor? Qual o múltiplo médio praticado nas transações comparáveis? Qual é a receita atual e o que precisa crescer para atingir esse ponto ótimo? Qual o funding necessário — e que tipo de capital não compromete o teto de valuation futuro?
Decisões tomadas no início da jornada — nível de diluição, tipo de capital captado, estrutura do captable — definem o teto possível lá na frente. Founders que captam rodadas sucessivas sem um plano de saída definido frequentemente descobrem que o valuation acumulado eliminou os compradores com capacidade real de executar a transação.
Existe uma armadilha que poucos discutem com clareza: captar rodadas de investimento em excesso pode inviabilizar o early exit.
Quando uma empresa acumula rodadas com valuations progressivamente maiores, o universo de compradores com capacidade de adquiri-la encolhe. Uma empresa que captou a R$ 50 milhões precisa de um exit mínimo de R$ 150 milhões para entregar retorno de 3x aos investidores — e no mercado brasileiro, esse patamar já elimina a maioria dos compradores estratégicos disponíveis.
Além disso, cláusulas de preferência de liquidação e direito de veto de investidores podem bloquear transações que os founders consideram boas, na espera de um múltiplo que o mercado talvez nunca ofereça. Seu funding precisa estar conectado com sua estratégia de saída. Esse alinhamento não é opcional — é o que determina se o early exit vai ser possível quando o momento chegar.
Uma das partes mais ricas do ecossistema de early exit é o movimento de #Giveback — founders que venderam suas empresas e voltam ao ecossistema como investidores-anjo, mentores e advisors de outras startups.
No Brasil, esse movimento ainda é tímido, mas cresce a cada ciclo de exits bem-sucedidos. Founders que passaram por um early exit bem estruturado carregam um tipo de conhecimento prático — sobre governança, due diligence, negociação e integração pós-deal — que nenhum curso ou acelerador consegue replicar. Quando esse conhecimento volta para o ecossistema, o efeito multiplicador é real.
É por isso que a cultura de early exit não beneficia apenas os founders que vendem. Beneficia o ecossistema inteiro.
Com 84% dos compradores estratégicos do mercado brasileiro com apetite ativo para aquisições em 2026, e um ciclo de M&A mais racional e distribuído do que qualquer momento anterior, a janela existe.
Cresça. Organize sua empresa. Prepare-se. Vai ter muita chance de fazer uma saída bem-sucedida nos próximos anos.
Se quiser entender se este é o momento da sua empresa, fale com a Questum. E se quiser os dados completos do mercado, acesse o M&A Deals Report 2025.
Early exit é uma estratégia que busca o ponto ótimo de saída para empreendedores e investidores — aquele em que o retorno ao risco tomado é maximizado sem depender de escala de unicórnio. No Brasil, 98% das transações de M&A ocorrem entre R$ 20 milhões e R$ 200 milhões, o que torna o early exit o caminho mais realista de liquidez para a maioria das empresas de tecnologia.
Não. Early exit é uma decisão estratégica construída ao longo do tempo, com governança estruturada, captable planejado e posicionamento adequado para o perfil dos compradores disponíveis no mercado. É o oposto de vender às pressas: é preparar a empresa para ser vendida no momento e no valuation corretos.
Rodadas de investimento com valuations progressivamente maiores reduzem o universo de compradores com capacidade de executar a transação. Se a empresa captou a um valuation de R$ 50 milhões, os investidores esperam retorno de 3x a 5x — o que exige um exit acima de R$ 150 milhões para satisfazê-los. Nessa faixa, a maioria dos compradores estratégicos brasileiros já não tem capacidade de compra, o que pode bloquear o exit indefinidamente.
Sim. O M&A Deals Report 2025 da Questum mostra 245 transações de tecnologia em 2025, crescimento de 71,1% no primeiro semestre e 84% dos principais compradores com intenção de adquirir até o final de 2026. O principal gargalo deixou de ser a falta de compradores e passou a ser a escassez de empresas efetivamente preparadas para o processo.