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Comprador estrangeiro ou nacional: para onde vai o exit | Questum

Escrito por Guilherme Tossulino | Jun 18, 2026, 2:38:20 PM

O sonho do exit internacional

Quase todo founder que pensa em vender a sua empresa de tecnologia começa com a mesma imagem na cabeça. Um comprador estrangeiro, um cheque em dólar e a manchete da venda internacional. É um sonho legítimo, e é fácil entender de onde ele vem.

Os dados do mercado brasileiro contam outra história. Em 2025, 89,8% das aquisições de empresas de tecnologia no Brasil foram feitas por compradores nacionais. O comprador de fora existe, está crescendo e tem peso. Mas ainda é exceção. E essa constatação, ao contrário do que parece, joga a favor de quem quer vender.

Na Questum, vemos esse descompasso o tempo todo. Empreendedores desenham a estratégia de saída mirando um comprador internacional que raramente chega e deixam de enxergar o capital estratégico que está cada vez mais perto, aqui dentro. A seguir, mostramos com dados para onde realmente vão os deals, e o que isso significa para você.

Atualização de agosto de 2026

Este artigo foi publicado com os dados fechados de 2025. O M&A Deals Report 2026 H1 mostra uma mudança relevante nessa proporção: no primeiro semestre de 2026, o comprador internacional respondeu por 20% das transações mapeadas, com 17 dos 85 deals do período. É a quinta alta consecutiva desse indicador, que saiu de 3 transações no primeiro semestre de 2024. A leitura de fundo deste texto continua válida, porque a maior parte do capital estrangeiro que compra tecnologia no Brasil opera por subsidiária local. O peso do comprador de fora, porém, deixou de ser marginal. Analisamos o novo cenário em como vender uma empresa SaaS no Brasil em 2026.

A maioria das vendas de tecnologia no Brasil é para compradores nacionais?

Sim, e com folga. Em 2025, os compradores nacionais responderam por 89,8% das aquisições de empresas de tecnologia no país, contra 10,2% de internacionais, segundo o M&A Deals Report da Questum. Foram 25 transações com comprador internacional no ano: um movimento em crescimento, mas ainda minoritário no total de operações de M&A do setor.

Indicador (M&A de tecnologia no Brasil, 2025) Valor
Compradores nacionais 89,8%
Compradores internacionais 10,2%
Transações com comprador internacional no ano 25
Índice de transações por comprador 1,16

M&A de tecnologia no Brasil em 2025. Fonte: M&A Deals Report Questum. O recorte considera a origem do comprador na transação, incluindo grupos estrangeiros que operam no país por subsidiária.

Por trás desse equilíbrio existe uma mudança estrutural. O índice de transações por comprador, que mede a concentração do mercado, ficou em 1,16, o menor patamar da série histórica da Questum. Na prática, isso significa muitas empresas diferentes fazendo ao menos uma aquisição, em vez de poucos consolidadores dominando o volume.

O M&A de tecnologia no Brasil ficou mais democrático, técnico e disciplinado, com empresas médias adotando o crescimento inorgânico como tese de expansão. Quem compra a sua empresa, na maioria dos casos, é um comprador estratégico que está aqui do lado.

Por que o comprador estrangeiro ainda é exceção no Brasil?

Porque as barreiras de entrada continuam altas. Ambiente regulatório complexo, instabilidade econômica e o desafio de integrar uma operação a distância afastam boa parte dos investidores globais de uma atuação mais intensa por aqui.

O movimento, porém, é de crescimento, e isso é um bom sinal. Ele indica amadurecimento, com empresas estrangeiras enxergando no Brasil ativos com tecnologia e tração que valem a análise. No índice de confiança para investimento estrangeiro direto da consultoria Kearney, o país alcançou a 19ª posição em 2024. Ainda assim, a presença internacional segue sendo um recorte estreito do mercado. O comprador de fora está chegando mais perto, e continua respondendo pela minoria das histórias de venda no Brasil.

Quem são os compradores estrangeiros mais ativos em tecnologia no Brasil?

Quando o capital estrangeiro entra no M&A de tecnologia brasileiro, ele chega de duas formas bem diferentes. Confundir as duas é um erro comum, e caro para quem desenha a estratégia de saída.

A primeira, e mais comum, é por grupos multinacionais que já operam no Brasil. A canadense Constellation Software, através da Vela Latam e da Volaris, e o grupo italiano Zucchetti, através da Zucchetti Brasil, consolidam softwares verticais com estrutura e times locais. Em 2025, a Vela fez 5 aquisições e a Volaris, 2. A Zucchetti Brasil comprou a D4Sign por R$ 180 milhões em 2024. Na prática, esses grupos compram e atuam como players nacionais, preservando autonomia e equipe das empresas adquiridas. O playbook deles é preservar e crescer, e a própria Volaris resume essa lógica no título de um de seus cases: vender pelo crescimento, e não pela saída.

A segunda forma é bem mais rara. É o comprador que chega de fora, sem operação prévia no país. É o cross-border puro. Foi assim que a norueguesa Visma adquiriu a ContaAzul em 2025 e que a americana CreativeDrive comprou a Decora em 2018.

Grupo Origem Como atua no Brasil Setores-alvo Exemplos no Brasil
Constellation / Vela Latam Canadá Operação local (subsidiária) Jurídico, Contábil, Saúde, ERP/TI, Logística Projetus TI, Pixeon, Gaudium, Shift, Sysopen
Volaris Group (Constellation) Canadá Operação local (subsidiária) RH e Folha, ERP industrial Nydus, Useall, Interplayers (2026)
Zucchetti Brasil Itália (grupo) Operação local (subsidiária) ERP, Varejo, RH, Fiscal D4Sign (R$ 180 mi, 2024), Compufour, Gdoor
Visma Noruega Entrou por aquisição direta e passou a operar localmente SaaS de gestão / ERP ContaAzul (US$ 300 mi, 2025), MaisMei (2026)
CreativeDrive EUA Aquisição direta de fora (cross-border) Retail tech, CGI 3D Decora (2018)
Didi Chuxing China Aquisição direta de fora (cross-border) Mobilidade urbana 99 (2018)

Grupos de capital estrangeiro ativos no mercado de tecnologia brasileiro. Fonte: base de deals Questum e imprensa especializada.

Essa distinção muda a leitura do founder. A maior parte do capital estrangeiro que compra tecnologia no Brasil já está aqui dentro, comprando como qualquer consolidador nacional. O comprador internacional do imaginário, aquele que aparece do exterior com um cheque em dólar, é o caso mais raro de todos.

E os grandes negócios cross-border, do tamanho do sonho em dólar ou euro, são raros e espaçados no tempo.

Ano Empresa brasileira Comprador País Valor aprox.
2018 99 Didi Chuxing China ~US$ 1 bi
2018 Decora CreativeDrive EUA ~US$ 100 mi
2025 ContaAzul Visma Noruega US$ 300 mi (~R$ 1,7 bi)

Marcos cross-border de maior valor com empresas de tecnologia brasileiras. Fonte: imprensa especializada e base de deals Questum.

O case Decora: quando o comprador internacional realmente aparece

A história da Decora mostra como o exit internacional acontece de verdade. A empresa nasceu em Florianópolis em 2012, desenvolvendo cenários e produtos em 3D para o varejo, e cresceu de um jeito raro: sem nunca receber aporte externo, com foco obsessivo no produto e, principalmente, fora do radar da mídia, dos concorrentes e dos próprios investidores.

O que atraiu o comprador estrangeiro foi o valor que a empresa construiu. Antes da venda, a Decora já operava nos Estados Unidos e atendia gigantes como Target, Lowe's e Bed Bath & Beyond. Esse mercado e essa tecnologia chamaram a atenção da nova-iorquina CreativeDrive, que adquiriu a Decora em 2018 por cerca de US$ 100 milhões, um dos maiores negócios de tecnologia do país naquele ano. A leitura é direta: o comprador internacional chega quando existe fit estratégico real e tração relevante. Ele é a consequência de um bom negócio, e raramente o atalho para construí-lo.

ContaAzul: o caso mais recente de venda a um comprador estrangeiro

O exemplo mais recente é a ContaAzul. Fundada em Joinville em 2011, a empresa se tornou uma das principais plataformas de gestão e ERP para pequenas empresas no Brasil, com cerca de 100 mil clientes. Em 2025, foi adquirida pela norueguesa Visma por cerca de US$ 300 milhões, perto de R$ 1,7 bilhão, na primeira aquisição da Visma em território brasileiro.

O padrão se repete. A Visma veio atrás de escala, receita recorrente e uma posição de liderança em um mercado fragmentado, construídas ao longo de quinze anos. A própria Visma descreveu a ContaAzul como a base ideal para o seu crescimento no Brasil, e em 2026 seguiu comprando por aqui com a aquisição da MaisMei. Como na Decora, os fundadores seguiram no negócio depois da venda. Quando o comprador internacional aparece, ele aparece por causa do valor que a empresa já construiu.

O dinheiro estratégico está cada vez mais perto

É aqui que mora a boa notícia. Enquanto o comprador estrangeiro segue sendo minoria, o capital estratégico nacional está em plena expansão e cada vez mais perto da sua empresa. No nosso Buy-side Report, mais de 84% dos principais compradores de tecnologia do país afirmaram que pretendem adquirir novas empresas nos próximos 12 meses, e os entrevistados investiram cerca de R$ 2,3 bilhões em aquisições.

E quando os grandes cheques aparecem, a consolidação está sendo conduzida aqui dentro. Em 2025, a TOTVS acumulou R$ 3,15 bilhões em aquisições e o iFood fez a maior aquisição do ano, de cerca de R$ 2,2 bilhões. Para quem pensa em vender, isso reposiciona a expectativa de forma realista: existe muito comprador estratégico com apetite aqui dentro, com mais players ativos olhando para empresas como a sua e menos atritos de integração do que uma operação internacional costuma exigir.

O que isso muda para quem pensa em vender

Muda o foco da pergunta. A questão deixa de ser de onde virá o comprador e passa a ser o quanto a sua empresa está preparada para receber qualquer comprador. Na Questum, trabalhamos com uma ideia simples: o objetivo é que a sua empresa seja comprada, e não vendida. E uma empresa é comprada quando está pronta. O principal gargalo do M&A de tecnologia no Brasil deixou de ser capital e passou a ser preparo.

Empresas com governança estruturada, métricas confiáveis e uma tese clara de valor atraem propostas mais rápido e fecham em melhores condições, seja com um consolidador brasileiro, seja com um grupo internacional. O sonho do exit em dólar não precisa ser abandonado. Ele só não pode virar uma estratégia de espera. O movimento mais inteligente é construir uma empresa tão sólida que o melhor comprador, venha ele de onde vier, queira chegar até você. Se quiser dar o primeiro passo, vale entender se a sua empresa já está pronta para um M&A, como funciona o processo de venda de uma empresa de tecnologia e por que as empresas compram umas às outras.

Perguntas frequentes

A maioria dos M&A de tecnologia no Brasil é com compradores nacionais ou estrangeiros?

Com compradores nacionais. Em 2025, eles responderam por 89,8% das aquisições de empresas de tecnologia no Brasil, contra 10,2% de internacionais, o equivalente a 25 transações no ano. No primeiro semestre de 2026 essa proporção subiu para 20%, segundo o M&A Deals Report 2026 H1.

Vale a pena esperar um comprador estrangeiro para vender minha empresa de tecnologia?

Esperar pelo comprador estrangeiro raramente é a melhor estratégia. Ele costuma aparecer só quando a empresa já construiu valor e tração relevantes. O capital estratégico nacional é maior, mais acessível e está crescendo. O foco deve ser preparar a empresa para qualquer comprador.

Quem são os compradores estrangeiros mais ativos em tecnologia no Brasil?

Os mais ativos são os braços da canadense Constellation Software, a Vela Latam e a Volaris, e a Zucchetti Brasil, do grupo italiano, que operam no país por subsidiárias com times locais. O comprador que chega de fora, sem operação prévia, é mais raro: foi o caso da norueguesa Visma, que comprou a ContaAzul em 2025 e passou a operar no Brasil.

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Fontes e dados
M&A Deals Report e Buy-side Report Questum (2023 a 2026 H1); Kearney FDICI 2024; Exame, SC Inova e InfoMoney (cases Decora, Zucchetti e 99); Brazil Journal e NSC Total (ContaAzul / Visma).