Publicado originalmente em 30/05/2023 — Atualizado em abril/2026.
Qual a diferença entre Venture Capital e Corporate Venture Capital? Basicamente, enquanto o Venture Capital se concentra no retorno financeiro, o Corporate Venture Capital traz para o centro da análise aspectos estratégicos da corporação além do retorno financeiro, tais como avaliar novas tecnologias, novos mercados, novos caminhos de receita, alternativas para melhorar eficiência operacional, entre outros.
Ambas as alternativas de funding têm prós e contras que devem ser avaliadas pelo empreendedor de startup . Vamos lá?
Os últimos anos foram de profunda transformação para o mercado de investimentos em startups no Brasil. Até um passado não muito distante, o país sequer tinha unicórnios para chamar de seus — a 99Taxi foi o primeiro, atingindo esse status em 2018 e sendo adquirida pela chinesa Didi Chuxing no mesmo ano. De lá para cá, várias outras startups atingiram a marca de USD 1 bi de valuation e entraram nesse seleto grupo. Segundo o Distrito, o Brasil conta com cerca de 22 unicórnios em 2026, mesmo após um biênio de ajuste: 2023 não teve nenhuma nova entrada na lista e 2024 trouxe apenas a fintech QI Tech. O ciclo atual é menos eufórico e mais seletivo, o que reforça a importância de empreendedores entenderem bem as diferenças entre venture capital e corporate venture capital antes de escolher o parceiro de capital.
O movimento de funding para startups no Brasil passou por profunda transformação na última década. Em 2021, no auge do ciclo de juros baixos globais, os aportes em startups brasileiras superaram USD 9,9 bilhões, como pode ser observado no gráfico abaixo. Depois disso, o mercado recuou fortemente com o aperto monetário: em 2025, as startups brasileiras captaram cerca de USD 4,5 bilhões (Sling Hub / Bloomberg Línea), volume ~13% inferior ao de 2024, mas com sinais claros de estabilização e rodadas mais maduras, concentradas em Série B para cima.
Evolução de investimentos em startups brasileirasVolume de investimento (USD milhões) × número de deals — 2017 a 2025Volume de investimento (USD mi)Número de deals9002.1003.8005.2009.9004.8001.9002.4004.500320450520560780870600530560201720182019202020212022202320242025Fontes: Distrito Inside VC (2017-2024) e Sling Hub/Bloomberg Línea (2025) — compilação Questum.
O amadurecimento do ambiente de investimento em startups trouxe também a consolidação de novas modalidades de investidores, entre eles os CVC, operações de venture capital tocadas por grandes corporações.
É importante destacar que o CVC na verdade constitui uma das ferramentas que empresas interessadas em trabalhar com open innovation utilizam para se relacionar com startups. Para isso, essas empresas precisam, antes de realizar seus investimentos, ter em mente quais os objetivos almejados com suas iniciativas de open innovation.
A interação da corporação poderá variar a depender da definição destes objetivos e de quão madura for a iniciativa de open innovation. O mercado brasileiro amadureceu de forma expressiva nos últimos anos: o ciclo atual é de seletividade, cheques maiores e participações mais relevantes — um retrato bem diferente do auge pós-pandemia, quando estudos como os da ABVCAP e da Bain mapeavam a multiplicação de iniciativas de CVC no país. O detalhamento numérico do estado atual do mercado está na seção "O novo mapa dos CVCs no Brasil" mais adiante neste texto.
A leitura dominante é de “flight to quality”: menos empresas ativas simultaneamente, porém cheques maiores, teses mais focadas e participações mais relevantes em cada rodada. O Global M&A Report 2026 da Bain reforça esse pano de fundo — o volume global de M&A cresceu cerca de 40% de 2024 para 2025 e as operações envolvendo VCs e CVCs avançaram em torno de 25% no mesmo período, evidenciando que o capital corporativo voltou a ocupar espaço relevante na mesa de negociações.
Investimentos de Venture Capital em startups brasileiras (USD bi)2017201820192020202120222023202420250,92,13,85,29,94,81,92,44,5Fontes: Distrito Inside VC (2017-2024) e Sling Hub/Bloomberg Línea (2025) — compilação Questum. Corporate Venture Capital no Brasil — nº de CVCs ativos201720182019202020212022202320242025182537537177717171Fontes: ABVCAP/Bain/EloGroup — compilação Questum (2025: estudo EloGroup + ABVCAP + ApexBrasil + GCV).Ao se comparar CVC e VC é possível notar algumas semelhanças, seja pelo estágio das startups investidas, instrumentos utilizados e participação acionária adquirida das startups - tipicamente uma participação minoritária.
Nesse sentido, é comum os empreendedores se questionarem sobre o porquê de escolher um ou outro investidor. Convém destacar que, geralmente, os CVCs contam com a possibilidade de aportar um capital intangível que pode ser muito útil aos empreendedores. Esse capital intangível pode vir em forma de acesso a canais, acesso a clientes, validação tecnológica, entre outros.
Todas essas formas de suporte são muito mais difíceis de serem acessadas quando se conversa com um investidor financeiro, como é o caso dos VCs. O fato de os VCs serem, sobretudo, investidores financeiros, reforça também uma segunda diferença importante: o foco do VC está em maximizar o retorno financeiro do aporte realizado por eles.
No caso dos CVC, na medida em que há aporte de capital intangível, não raramente são medidos também retornos que vão além do retorno financeiro. Como foi colocado no início do texto, um CVC é uma ferramenta de uma iniciativa mais ampla, de open innovation.
A depender dos objetivos da corporação com tal iniciativa, a atuação desta corporação com investimentos em startups poderá ter um foco mais voltado para retorno financeiro, alimentar funil para possíveis aquisições ou até mesmo um objetivo mais estratégico e de longo prazo.
A 99Taxi, por exemplo, foi investida ainda em 2013 pela iniciativa de CVC da Qualcomm, fabricante de chips de celulares. Neste caso, presume-se, o racional por trás do investimento deste CVC estava em fomentar novos modelos de negócios baseados em equipamentos que utilizassem seus chips. A tese se provou acertada tanto do ponto de vista estratégico quanto financeiro: em 2018, a 99 foi adquirida pela chinesa Didi Chuxing em uma das maiores operações de M&A de tecnologia já realizadas no Brasil, entregando retorno expressivo aos investidores. Casos mais recentes mostram o mesmo racional combinando estratégia e retorno, como o aporte do BB Ventures na Payfy e o investimento da Serasa Experian na Débito Direto, rodada que reforça a digitalização do ecossistema automotivo e de crédito. São operações de CVCs bancários, industriais e de datatechs que passaram a priorizar teses de IA, serviços financeiros, saúde, indústria, agronegócio e varejo. Um último ponto, pouco comentado, mas que pode fazer uma diferença significativa na vida do empreendedor é a relação do VC e do CVC com os donos do dinheiro.
Enquanto o VC possui regras rígidas, prazos de investimento e desinvestimento previstos em regulamento e prestação de contas para cotistas, os CVC trabalham com recursos próprios.
Ainda que a corporação seja eventualmente uma companhia de capital aberto, a relação dos gestores do CVC é com um único "cotista". Dessa forma, é de se esperar que nos CVC tende a ser menor a situação de pressão por liquidez com a proximidade do término do prazo do fundo.
Para o empreendedor que avalia receber investimentos de VC ou CVC, algumas questões são comuns:
Como este investidor se comporta enquanto sócio?
Qual o track record dele? Consigo fazer uma due diligence junto a empresas que já foram investidas?
Qual a estrutura de governança desse investidor? Quem toma a decisão?
Os sócios/diretores envolvidos no investimento na minha startup estão devidamente incentivados para permanecer no projeto nos próximos anos?
As questões acima são relevantes e devem ser feitas independente se o empreendedor avalia investimentos oriundos de um ou outro modelo. Contudo, as respostas e o peso que se dá a alguns fatores podem variar.
Por exemplo: do CVC, por envolver um player estratégico, a primeira e última questão podem ter um peso mais relevante. Por um lado, a forma como o CVC se comporta como sócio revela muito sobre a tese de investimento e a tese de open innovation da corporação.
Por outro lado, para que o capital intangível que foi negociado antes do investimento seja efetivamente realizado, a startup precisará contar com estrutura e suporte de pessoas-chave dentro da corporação, de modo que convém avaliar o quão engajadas essas pessoas-chave estão nesse processo.
Para o empreendedor que avalia captar recursos com CVC, recomenda-se primeiramente conhecer bem a tese da iniciativa de investimento da corporação interessada:
Qual o objetivo da corporação com esses investimentos?
Como a corporação se comporta enquanto sócia?
Qual nível de interferência a corporação traz para decisões estratégicas e de governança?
Como a corporação consegue agregar valor ao meu negócio no dia seguinte ao investimento?
Quão sólida é a estrutura do CVC? Como é a governança?
Todas essas são questões importantes de serem respondidas antes de avançar na captação com um CVC e, sempre que possível, com exemplos tangíveis. Uma boa sugestão é conversar com outros empreendedores que já passaram pela experiência de receber aportes de corporações, ou até mesmo da própria corporação em questão.
Por fim, é importante o empreendedor ponderar sobre a possibilidade de a corporação com a qual ele conversa ser um potencial comprador de sua startup no futuro. Não é raro encontrar iniciativas de CVC que visam alimentar o funil de M&A.
Contudo, nestes casos, convém avaliar o momento certo de trazer um CVC para seu captable e também trabalhar para equilibrar a participação deste CVC e também os termos de governança, de modo a não impactar negociações futuras. Leia também:
O mercado brasileiro de venture capital corporativo passou por uma reconfiguração importante nos últimos anos. Segundo levantamento da ABVCAP em parceria com a EloGroup, ApexBrasil e Global Corporate Venturing, existem atualmente 71 CVCs ativos no país. Contudo, apenas 42 dessas corporações realizaram algum investimento nos 12 meses encerrados em junho de 2025, ante 48 no período anterior e mais de 100 fundos proprietários mapeados em 2021, no auge do otimismo pós-pandemia.
O movimento reflete uma fase de amadurecimento do ecossistema de venture capital: com juros altos e múltiplos pressionados, os fundos que permaneceram ativos ficaram mais seletivos, concentrando aportes em startups mais maduras e com tração comprovada. A quantidade de rodadas com participação de CVCs caiu de 135 para 66 no período, enquanto o cheque médio em Série B saltou de US$ 7,4 milhões para US$ 34,6 milhões, sinal de que as corporações brasileiras estão apoiando startups em fases de escala e buscando sinergias estratégicas mais claras com seus negócios principais.
A nova dinâmica também separou quem veio pela onda de quem veio pela tese. Companhias como Braskem (Oxygea) e Americanas (IF - Inovação e Futuro) encerraram suas operações de CVC, enquanto a Gerdau colocou sua iniciativa sob revisão. Do outro lado, BB Ventures adicionou R$ 300 milhões ao programa (totalizando até R$ 500 milhões), o Itaú internalizou seu braço de venture (ex-Kinea Venture), rebatizado de Itaú Ventures, com R$ 500 milhões comprometidos, e a Vivo Ventures ampliou o capital para R$ 470 milhões, reforçando o movimento de dobrar a aposta em iniciativas alinhadas ao core business. Dados e contexto completo no Neofeed.
Em paralelo à reconstrução do mercado de CVC, o avanço acelerado das empresas de Inteligência Artificial redefine a tese de investimento dos fundos corporativos. Se o ciclo anterior foi marcado pelo FOMO e pela dispersão setorial, o próximo ciclo tende a ser guiado por sinergia estratégica clara com o core business, bem como por IA aplicada a verticais como serviços financeiros, saúde, indústria, agronegócio e varejo é hoje a principal fronteira dessa busca.
Para o empreendedor que avalia captar recursos via venture capital ou Corporate Venture Capital, vale entender como a investidora enxerga IA: como vetor de eficiência interna, como nova linha de receita ou como ameaça competitiva ao seu próprio modelo. Startups que integram IA de forma defensável (com dados proprietários, distribuição e regulamentação a favor) tendem a ganhar prioridade em teses de CVC que agora preferem cheques maiores, rodadas Série B para cima e participações relevantes, capazes de extrair sinergias operacionais no curto prazo.
O recado é claro: o venture capital corporativo brasileiro está menor em número, porém mais maduro, mais estratégico e mais exigente. Escolher bem o parceiro de capital, dentro desse novo mapa, importa mais do que nunca.