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Valuation na prática: como aumentar o valor no M&A | Questum

Escrito por Rafael Assunção | Jun 12, 2026 3:57:10 PM

Aumentar o valuation de uma empresa de tecnologia antes da venda depende de quatro decisões que estão sob o controle do fundador. Nenhuma delas exige esperar a taxa de juros cair.

Há pouco tempo, publiquei aqui no blog um estudo sobre a Regra dos 40. Simulei uma empresa de tecnologia faturando R$ 10 milhões, num custo de capital perto de 25% ao ano, o patamar de juros que o empreendedor brasileiro enfrenta em 2026, e mostrei, em reais, como diferentes combinações de crescimento e margem mudam o valuation. A conclusão incomodou a intuição de muita gente: o maior valor aparece quando a empresa cresce e gera caixa ao mesmo tempo, acima de qualquer aposta isolada em apenas um dos dois lados.

Aquele estudo respondeu qual combinação vale mais. Este responde a pergunta seguinte, a que de fato tira o sono do fundador: como eu saio de onde estou e chego lá, e o que o comprador faz com os meus números quando eu sentar para negociar? As quatro decisões são crescer de forma eficiente em capital, conhecer o seu EBITDA ajustado, construir uma série histórica que sustente as projeções e escolher o momento certo de ir ao mercado.

Da Regra dos 40 à execução

Quando um empreendedor me procura, ele quase nunca está na combinação ótima. Está crescendo 20% ao ano com margem apertada, ou gera um caixa razoável e cresce devagar. A pergunta prática é sempre a mesma: que alavanca eu puxo primeiro?

Crescer nem sempre exige captar

A primeira reação costuma ser idêntica em quase todos os casos. Preciso de capital. Preciso captar para acelerar. Na maior parte dos casos de SaaS B2B que acompanhamos na Questum, dá para crescer sem captar. Crescer de forma intensiva em capital é um caminho possível. Crescer de forma eficiente, com CAC payback curto e uma estrutura asset light, é outro. O segundo aprecia muito mais o valuation, porque cada real novo de receita não exige dez reais de queima para aparecer no resultado.

O indicador que eu uso para medir essa eficiência é o CAC payback, o tempo que a empresa leva para recuperar o custo de adquirir um cliente. Quanto mais curto, mais a empresa pode acelerar o crescimento sem pressionar o caixa. É essa relação que separa um crescimento saudável de um crescimento que só existe enquanto entra dinheiro novo. No fundo, crescer de forma intensiva em capital costuma ser uma escolha do próprio empreendedor. Salvo modelos que são intensivos por natureza, como deep tech, dá para desenhar estratégias mais econômicas, escolhendo canal, cliente e oferta que maximizem a eficiência de cada real investido em crescimento.

Dois casos reais: como o ponteiro se move

No Projeto Berlim, o desafio era quase desconfortável de tão simples. A empresa tinha um produto redondo, um mercado grande pela frente e um CAC payback curto. Não faltava o que inventar. Faltava vender mais. A virada foi de mentalidade: se com a estrutura comercial existente a empresa já trazia um volume consistente de clientes por mês, olhando para poucas geografias, por que não expandir essa estrutura de forma relevante?

A gente trabalhou em duas frentes ao mesmo tempo: ampliar a equipe comercial, mês após mês, para ganhar velocidade de aquisição, e organizar a governança para que a empresa sobrevivesse a uma diligência. A companhia saiu de cerca de 80 pessoas para 400, e a receita cresceu perto de dez vezes no período. Como o CAC payback era curto, dava para acelerar sem comprometer o fluxo de caixa, e a receita por colaborador subiu bastante ao longo do tempo. Quando chegou a hora de negociar, levávamos à mesa uma curva que acelerou de verdade. E curva que acelera vai para o preço.

O Projeto Sidney é o contrário no diagnóstico. O fundador era criativo, do tipo que cria produto o tempo todo. A receita estava pulverizada em várias frentes, o ticket médio era mediano e o EBITDA, baixo, porque cada novo produto consumia caixa antes de escalar. Os clientes pediam mais do que software. Pediam que a empresa operasse a solução por eles, que resolvesse o problema inteiro. Como quase todo fundador de tecnologia, ele resistiu no começo, com aquele receio de que serviço não escala e tira o foco do produto. Sugerimos concentrar energia no produto campeão e construir, em cima dele, uma operação de serviços recorrentes.

A empresa virou um BPO baseado em tecnologia própria. Ticket maior, CAC payback melhor e um churn que passou a ser negativo, porque a empresa crescia dentro da própria base. Também foi um caso de crescer cerca de dez vezes, dessa vez puxado pela oferta. Esse caso mostra uma transição de fase comum em tecnologia. A criatividade que tira o produto do papel precisa, em algum momento, dar lugar à disciplina de repetir bem o que já funciona, concentrando foco e desligando o que dispersa caixa. Acompanhamos a empresa até hoje, e ela seguiu crescendo de forma relevante mesmo depois da venda, já dentro do comprador, durante o período de earn-out.

Na superfície, os dois casos têm pouca coisa em comum. Um cresceu mexendo na máquina de vendas, o outro mudando a oferta. Mas o motor era o mesmo: uma escolha estratégica eficiente em capital, executada com disciplina, ao lado de uma governança que permitiu a transação acontecer. Foi essa combinação que apreciou o valor. Vale notar o oposto também: uma empresa que não passa em uma diligência e ainda cresce devagar, gerando pouco caixa, acumula as duas piores notícias ao mesmo tempo. É ilíquida pela governança e vale pouco pelo desempenho.

O que o comprador faz com os seus números

Aqui está a parte que mais surpreende quem nunca sentou em uma mesa de negociação. O EBITDA que você acredita ter pode não ser o EBITDA que o comprador vai considerar. O salário do sócio que sai como distribuição de dividendos precisa entrar na conta. Os prestadores PJ que, na prática, são time fixo deveriam ser custeados como CLT. Quando o comprador refaz essa conta, aquele EBITDA de 40% que deixava você confortável na regra pode encolher bastante. Já vi muitos casos em que, depois do ajuste, sobra bem menos do que o fundador imaginava.

Calcule o seu EBITDA ajustado antes que o outro lado faça isso por você. Saber o número real é o ponto de partida. É a diferença entre chegar preparado e descobrir, no meio da diligência, que a empresa vale uma fração do que você esperava. Você sabe quanto sobra do seu EBITDA depois desses ajustes?

A curva que sustenta o preço

Existe um detalhe técnico que vale mais do que qualquer projeção bem desenhada. O comprador paga pelo que vê e desconta o que você apenas promete. Se a sua empresa cresce 20% há cinco anos e o business plan afirma que no próximo ano cresce 40%, a primeira pergunta dele vai ser de onde vem essa virada. Sem uma série histórica que sustente a premissa, a projeção não para em pé.

Nos dois casos que contei, o que fez diferença foi chegar ao mercado com 12 a 24 meses da curva nova já realizada. Isso embasa a premissa de crescimento e protege o earn-out, porque você deixa de se comprometer com metas que talvez não entregue. Prometer uma aceleração que ainda não aconteceu é arriscado nos dois sentidos: derruba a credibilidade da projeção na largada e cria um earn-out que você pode não cumprir lá na frente.

Esperar ou ir ao mercado?

Essa é a pergunta que nenhuma tabela responde. O tempo certo depende do seu objetivo de liquidez. Se a sua empresa já está num valuation que atende o que você deseja e existe um comprador real interessado, não perca a oportunidade à espera de bater um número que algum estudo apontou como ideal. Se você está a duas ou três vezes de distância do seu alvo e ainda não passa em uma diligência, gastar tempo com o comprador que liga toda semana montando pipeline também não ajuda. O honesto, nesse caso, é dizer que a casa está em obras e procurar de volta quando estiver pronta.

O que está sob o seu controle

A taxa de juros está fora do seu alcance. O apetite do comprador também. A combinação entre crescimento e geração de caixa, essa mora dentro de casa, e é a maior alavanca de valor que você tem. O gargalo do M&A em tecnologia deixou de ser capital e passou a ser preparo, e preparo é exatamente o que está ao seu alcance. O recado que eu repito para os empreendedores que a gente acompanha é direto: uma empresa existe para gerar caixa. Ela pode viver uma fase de descoberta, mas em algum momento precisa transformar o valor que entrega ao cliente em caixa consistente. Um negócio que cresce todos os anos e não gera caixa corre o risco de virar um hobby caro.

Se você ainda não viu os números que sustentam esse equilíbrio, vale começar pelo estudo sobre a Regra dos 40. E, antes de decidir o timing, o passo anterior é entender se faz sentido vender a sua empresa agora.

Perguntas frequentes

O que mais impacta o valuation de uma empresa de tecnologia no Brasil?

A combinação entre taxa de crescimento e geração de caixa. Sob um custo de capital perto de 25% ao ano, o maior valor aparece quando a empresa cresce e gera caixa ao mesmo tempo, com as duas variáveis em equilíbrio.

Preciso captar investimento para aumentar o meu valuation?

Nem sempre. Em modelos de SaaS B2B, é possível crescer de forma eficiente em capital, com CAC payback curto e estrutura asset light. Captar é uma das opções, e em muitos casos dá para acelerar o crescimento sem diluir o quadro de sócios.

O que é EBITDA ajustado e por que ele importa numa venda?

É o EBITDA recalculado com as correções que o comprador costuma fazer, como deduzir o salário dos sócios e tratar prestadores PJ recorrentes como CLT. Esse ajuste pode reduzir bastante um resultado que parecia confortável, então calcular o EBITDA ajustado antes da negociação evita surpresas na diligência.

Quando é o momento certo de vender a empresa?

Depende do objetivo de liquidez do fundador. Se a empresa já atinge um valuation que atende esse objetivo e existe um comprador real, faz sentido seguir. Se ainda falta muito para o alvo e a empresa não passaria em uma diligência, o melhor uso do tempo é preparar a casa antes de ir ao mercado.