Em 2019, Thiago de Assis comprou uma empresa de impressão. O setor vinha em queda há décadas. 80% da receita dependia de contratos intensivos em capital e mão de obra.
Parecia um movimento estranho para quem acabava de sair de um MBA nos Estados Unidos com passagem por consultoria estratégica.
Mas Thiago não chegou à Stoque por acaso. Ele estruturou um search fund, modelo em que um empreendedor capta recursos de investidores, busca uma empresa com potencial, compra, assume a gestão e a transforma. Avaliou 450 empresas ao longo de um ano e meio antes de assinar o deal. A Stoque tinha a pontuação mais alta em todos os critérios do scorecard: contratos longos, receita recorrente, histórico de crescimento e donos dispostos a vender.
Seis anos depois, a Stoque fatura mais de R$ 130 milhões; O software responde por mais de 55% da receita; Duas aquisições foram realizadas.
A trajetória da Stoque não é um caso isolado. É um exemplo aplicado de como crescimento via aquisição funciona quando há tese, disciplina e preparo. Em 2025, o setor de tecnologia registrou crescimento de 77% no valor das transações globais de M&A, segundo a Bain & Company. No Brasil, 84% dos compradores ativos pretendem realizar ao menos uma aquisição até o final de 2026, segundo o Buy-side Report da Questum.
O capital está disponível. A pergunta é: o que separa quem cresce via aquisição de quem apenas compra?
O search fund que Thiago estruturou seguia uma lógica precisa. Não era empreendedorismo do zero. Era empreendedorismo por aquisição: encontrar uma empresa sólida, subutilizada, com fundamentos que permitissem uma transformação real.
A Stoque tinha exatamente isso: Contratos de cinco anos com cláusula take or pay, fluxo de caixa previsível, uma base consolidada de grandes clientes corporativos e 20% da receita já vindo de gestão de documentos digitais.
Thiago não comprou uma empresa de impressão. Comprou uma plataforma de relacionamento com grandes empresas que ainda não havia descoberto o produto que deveria vender.
Essa distinção muda tudo na hora de avaliar um ativo para M&A. O que aparece como negócio em declínio pode ser uma base de distribuição subutilizada. Valuation não acompanha só receita atual, mas sim a capacidade de transformação com os recursos disponíveis.
Compradores que entendem isso saem na frente. E os dados confirmam: segundo o Buy-side Report 2025 da Questum, 33% dos compradores ativos não têm orçamento pré-definido para aquisições. O capital se mobiliza quando o ativo encaixa na tese estratégica, não quando o múltiplo está baixo.
Para entender melhor o perfil dos compradores ativos no mercado de tecnologia brasileiro, veja o artigo sobre search funds como nova categoria de compradores.
Seis anos após a compra da Stoque, dois movimentos de M&A consolidaram a tese.
Em 2023, a Zeev - plataforma low-code de automação de processos com cultura de produto e base técnica que a Stoque não teria construído no mesmo prazo organicamente. Os sete sócios da Zeev escolheram a Stoque entre múltiplos compradores. Cinco continuam como sócios da companhia após o deal.
Em 2026, a Rectask -especializada em automação de esteiras de crédito, com parceria que já durava desde 2021. A aquisição formalizou o que já funcionava na prática e abriu uma vertical dedicada à automação de crédito, área que já representa 35% da receita da Stoque.
O software saltou de 8% para mais de 55% da receita. Em 2026, passou a ser a maior fonte de receita e margem da companhia.
Foram dois deals e uma direção consistente.
Esse padrão se repete nos processos de M&A que acompanho: compradores com tese clara constroem valor de forma diferente de compradores que adquirem por múltiplos e esperam que as sinergias apareçam sozinhas. Crescimento inorgânico com disciplina de alocação é estratégia. Sem ela, é só expansão de balanço.
A decisão de comprar a Zeev foi técnica e também cultural. Os sete sócios da Zeev poderiam ter vendido para qualquer comprador. Escolheram a Stoque. Dois se aposentaram. Cinco ficaram como sócios ativos da companhia.
A mesma lógica se repetiu na Rectask. Os fundadores passaram a integrar a liderança da nova operação. Não porque o contrato exigia, mas porque o ambiente permitia continuar empreendendo.
O founder que fez M&A e ficou rico precisa de um motivo para continuar. Dinheiro já não é o motivo.
Thiago foi direto sobre isso no episódio do Better Deals: o principal indicador de sucesso de uma aquisição é a vontade dos fundadores de continuarem. Não é o múltiplo pago ou a receita integrada no primeiro trimestre, mas sim a permanência.
Construir o deal em torno dessa lógica exige humildade e clareza sobre o que o outro lado trouxe. A Zeev chegou com cultura de produto, formas diferentes de atrair talentos e uma mentalidade que acelerou a transformação da Stoque mais do que qualquer plano de integração teria conseguido. A Rectask chegou com tecnologia já embarcada em operações críticas de crédito, quatro anos de parceria real e um time de 50 pessoas comprometido com o resultado.
Para quem está no outro lado da mesa, pensando em vender, essa perspectiva muda a conversa sobre o que negociar além do valuation. O que acontece depois do closing define se o deal entregou o que prometia para os dois lados. Para aprofundar esse ponto, veja como negociar o exit de uma empresa de tecnologia.
Com a Zeev dentro da companhia, a Stoque ganhou a base tecnológica para escalar automação com IA generativa de forma que serviços sozinhos nunca conseguiriam.
O processo de mapeamento de automação que levava três meses passou a acontecer em horas, em linguagem natural, dentro da própria plataforma. Áreas que não tinham orçamento para automação passaram a ter. O mercado endereçável cresceu, especialmente no segmento de médias empresas.
A adoção interna na Stoque cresceu de 300 para quase 2.000 atividades automatizadas com IA entre janeiro e fevereiro de 2025. Dez por cento do bônus de todos os gestores está atrelado à implementação de projetos de IA generativa. A empresa é parceira da IBM Watson AI, da AWS e ganhou prêmio da Meta pelo uso do Llama.
Para founders de empresas de tecnologia, o impacto direto está no valuation. Segundo a Bain & Company, empresas que incorporam inteligência artificial em seus produtos ou que possuem bases de dados proprietárias tornaram-se ativos disputados tanto por compradores estratégicos quanto por fundos de private equity em 2025.
A pergunta que compradores fazem hoje não é só "vocês usam IA?" É: como vocês usam, com que profundidade, e o que isso representa em ganho de margem ou capacidade de escala?
Empresas que respondem essa pergunta com dados saem de processos de M&A em posição diferente.
A trajetória da Stoque responde a pergunta que abrimos no início: o que separa quem cresce via aquisição de quem apenas compra?
Tese clara antes do primeiro deal. Disciplina de alocação ao longo do processo. Capacidade de integrar sem destruir o que o outro lado construiu. E paciência para colher resultados que não aparecem no trimestre seguinte ao closing.
O search fund foi o veículo. A transformação foi o trabalho de seis anos e as aquisições foram aceleradores, não atalhos.
Bons exits são construídos ao longo da jornada. Boas aquisições também.
Ouça o episódio completo do Better Deals com Thiago de Assis. Se você está avaliando um processo de M&A para a sua empresa, fale com a Questum.